Quinta-feira, 22 de Abril de 2021
EFEITO PANDEMIA

Protetores de animais sofrem com queda no número de doações em Manaus

Com preço das rações em alta e a queda nas ajudas solidárias, muitos protetores são forçados a parar de resgatar cães e gatos das ruas da cidade



d9173c29-1fcc-4dfc-8dda-438e6d24c236_7E8E4F6E-607B-4BF8-90B8-21D20E59FC18.jpg Realidade de quem resgata animais das ruas de Manaus é dificultada pela pandemia. Foto: Junio Matos
07/03/2021 às 07:14

Alta no preço das rações, pouco apoio financeiro, superlotação e baixa procura por adoção. Esses têm sido alguns problemas enfrentados por canis e gatis, em Manaus, durante a pandemia da Covid-19. Neste momento delicado, protetores independentes e Organizações Não-Governamentais (ONGs) de amparo aos animais na cidade contam com a solidariedade e humanidade de pessoas dispostas a auxiliar na sobrevivência dessas entidades que sofrem com os impactos econômicos do novo coronavírus.

A ONG Guardiões dos Animais cuida, hoje, de quase 80 animais resgatados, entre cães e gatos, de acordo com a fundadora do grupo, a médica veterinária Pauline Voss, de 38 anos. Ela conta que o grupo, composto por cinco protetoras independentes, recebe ajuda financeira de pouquíssimas pessoas que eventualmente doam material de limpeza, como shampoo, remédios e dinheiro para compra de ração.




Pauline Voss conta a rotina de cuidar de mais de 80 animais resgatados: o amor é fundamental. Foto: Arquivo Pessoal.

Segundo a médica veterinária, também por falta de recursos, a ONG não possui um abrigo e os animais resgatados são acolhidos nas casas das próprias protetoras, até que sejam adotados. “Antes da pandemia, já havíamos sentido uma forte redução nas doações por causa da crise financeira. Com a pandemia ficou muito pior. Está difícil até conseguir doação de valores simbólicos de R$ 1,00. E mais, houve aumento absurdo no valor das rações, sachês e remédios”, destacou.

A situação não é diferente para a protetora independente, Maria Rosana (nome fictício) e seu esposo, que juntos cuidam de 70 animais resgatados, entre cães e gatos. Como eles moram em casa alugada, o casal preferiu não se identificar para evitar possíveis problemas. Maria conta que para manter os animais, castrar e vacinar realiza campanhas de doações e também recebe eventuais ajudas de clínicas veterinárias.


O casal preferiu não se identificar, já que muitas pessoas procuram os protetores para abandonar animais. Foto: Arquivo Pessoal.

“As ajudas não vieram muito, estão devagar. Estou com uma dívida de R$ 2.470 no petshop desde dezembro, quando comprei um lote de ração. Só de ração para gato é R$ 1mil, de cachorro R$ 800. Fiz até rifas, e faço vaquinha online para ração. Tem que comprar areia para os gatos fazerem suas necessidades, só de areia é quase R$ 300”, contou.

Sem apoio financeiro e por falta de espaço físico, algumas dessas entidades precisaram parar com o trabalho de resgate porque o índice de abandono vai muito além dos recursos que elas dispõem. Esse é o caso da ONG Guardiões dos Animais, que atua desde 2012, mas hoje está sem condições financeiras para continuar com o trabalho de resgate.

“Atualmente, não estamos resgatando mais das ruas, já fizemos muito isso, retirávamos de maus tratos também. Hoje focamos em cuidar dos quase 80 resgatados que ainda temos e não tiveram a sorte de serem adotados com responsabilidade. Porém, as pessoas ainda abandonam nas nossas portas caixas com ninhadas de cães e gatos, e esse ainda é o tipo de resgate que fazemos”, disse a fundadora do grupo.

Para ajudar a ONG Guardiões dos Animais, é possível fazer uma transferência via PIX para cacilda.caa@gmail.com. Também é possível acompanhar o dia a dia dos animais resgatados por meio da página do instagram, clicando aqui.


Animais cuidados pela ONG Guardiões dos Animais, em Manaus. Foto: Arquivo Pessoal.

Terapia

Em tempos de isolamento social, acolher animais em casa foi uma espécie de terapia para a produtora de eventos Ana Portela. Ela conta que ficava em uma ponte aérea entre Manaus e São Paulo por causa do trabalho, quando começou a surgir os primeiros casos da Covid-19. Como sua família é do grupo risco, ela decidiu passar a quarentena sozinha em uma casa que havia reformado para alugar.

Segundo a produtora, o isolamento que seria temporário durou quase cinco meses, sem contato com ninguém. “Tinha uma gatinha que eu alimentava há um ano aqui pela porta. Quando eu cheguei, ela veio atrás de mim e ela estava grávida e teve uma ninhada de três gatos, e eu tinha essa casa vazia, aí coloquei essa gatinha pra dentro”, disse.


Os animais também servem como amigos e auxiliam em terapias. Foto: Arquivo Pessoal.

Depois do primeiro resgate vieram outros, sendo três de gatas grávidas. Sem condições financeiras para castrar todos os animais, o número multiplicou. Hoje, a produtora de eventos cuida de 21 gatos. Ela conta que não se arrepende da escolha, apesar de ter recebido algumas propostas para locação da casa, e de ter passado meses sem trabalho porque o mercado em que atua foi um dos mais afetados pela pandemia.

“Eles foram a minha base emocional, eu tenho certeza que sem eles eu não teria conseguido passar emocionalmente por todo esse processo de solidão, isolada da minha família, isolada dos meus animais... Mas, estou com dificuldade sim, é uma carga muito pesada, é uma rotina que leva de 2 a 4 horas do teu dia, mas eu não tenho nada o que reclamar porque esses animais me mantiveram sã, inclusive agora recente quando eu peguei covid, e tinha que levantar da cama todos os dias para cuidar da rotina deles”, disse.

Ana disponibilizou o pix correnteadoteamor@gmail.com para quem tiver interesse em ajudar com qualquer quantia como doação para os seus animais. Ela também deu início a uma página no instagram, para divulgar a adoção dos bichanos e divulgar o dia a dia dos hóspedes felinos, é a 'Adote Amor'.


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