Terça-feira, 22 de Junho de 2021
REALIDADE

Com frota menor, trabalhadores e usuários do transporte ficam expostos à Covid-19

Em Manaus, segundo estimativas do IMMU, cerca de 300 mil pessoas se amontoam nos ônibus convencionais todos os dias; frota tem, pelo menos, 200 veículos a menos que antes da pandemia, segundo o Sinetram



frofrota_8287E00A-2B7B-4FCD-82DD-F1023DE9497C.JPG (Foto: Iago Albuquerque)
17/04/2021 às 12:40

A superlotação do transporte coletivo ainda é um foco de proliferação do novo coronavírus em todo o país. Em Manaus, segundo estimativas do IMMU, cerca de 300 mil pessoas se amontoam nos ônibus convencionais todos os dias, um espaço favorável à disseminação da covid-19. E que acaba reduzindo o impacto das outras medidas restritivas necessárias ao enfrentamento da pandemia, como os horários de funcionamento do comércio.

Mesmo com todas as liberações e flexibilizações já feitas, o que consequentemente leva um maior número de pessoas às ruas, a frota total de veículos ainda não é a mesma de antes da pandemia, o que acaba favorecendo as lotações. 



A Prefeitura de Manaus afirma ter adotado uma série de medidas para combater o cenário de ônibus lotados, que vão desde o monitoramento de garagens pelos fiscais, reforço da frota nas linhas que apresentam excesso de passageiros, aumento do número de viagens das linhas e entrega de mais 42 novos ônibus para compor a frota. Mas a multidão que se espreme nos coletivos ainda é cena diária.

No início do mês, o Ministério da Saúde já havia sinalizado tentativa de formular uma série de orientações para padronizar nacionalmente o combate ao vírus, que inclui o transporte público como um dos pontos principais da tentativa de uniformização. O objetivo é encontrar alternativas para que não haja aglomerações nos deslocamentos, e, assim, evitar medidas restritivas mais duras.

O movimento ainda não passou de intenção, mas o ministro da saúde, Marcelo Queiroga, chegou a se reunir com o ministro Tarcísio Freitas (Infraestrutura) para discutir o assunto. A sinalização foi bem recebida por secretários municipais de saúde.

No caso da Prefeitura de Manaus, o Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) disse à reportagem que vem adotando uma série de medidas para combater a lotação dos coletivos. Segundo o IMMU, nove linhas de ônibus do transporte coletivo ganharam reforço: 678, 676, 600, 560, 449, 448, 034, 013 e 010, passando a circular com aumento no número de viagens.

A pasta destaca que durante a pandemia, os ônibus circulam de acordo com as restrições de decretos do Estado e município.

No dia 14 de janeiro, quando o Amazonas registrou as primeiras mortes por falta de oxigênio, o governo do Estado decretou toque de recolher das 19h00 às 06h00, medida mais restritiva já tomada. Por ocasião deste decreto (decreto Estadual nº 43.282), a circulação de ônibus foi afetada sendo diminuída em 25% no horário de cumprimento do toque de recolher.

Com a retomada gradual de setores do comércio não essencial, o governador Wilson Lima (PSC) diminuiu o horário do toque de recolher que passou a ser de 00h00 às 06h00.

A frota

O advogado Fernando Borges, representante jurídico do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Amazonas (Sinetram), afirmou que atualmente rodam na cidade de Manaus cerca de 800 ônibus, número, segundo ele, “bastante próximo do que rodava antes da pandemia''.

Mil ônibus atendiam a população antes da eclosão da pandemia, de acordo com Borges. Ele aponta que o Sinetram registra uma queda de 50% do fluxo de passageiros nas linhas de ônibus operadas pelas oito empresas que operam o modal. 600 mil passageiros era o número de usuários antes da explosão de casos do novo coronavírus.

“Em torno de 150 a 200 ônibus a menos a depender do horário. Porque tem que adaptar o horário e também estamos num processo de renovação da frota. Os ônibus antigos estão saindo de circulação e entrando os ônibus novos”, explicou.

O representante do Sinetram reconhece que a redução da oferta dos ônibus é por causa de prejuízos financeiros dos empresários, ocasionada pela redução de locomoção da população por conta do vírus, mas ele disse que a prefeitura está entrando com recursos para garantir o funcionamento do transporte. Faltando concluir os estudos para definir os valores exatos dos repasses.

O vereador Jaildo dos Rodoviários (PCdoB), ex- membro da diretoria do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Coletivo Urbano Rodoviário de Manaus e Região Metropolitana (STTRM), afastado das funções para cumprir mandato, disse que o número de ônibus que circulam em Manaus não chega a 700.

Trabalhadores

Jaildo relata que 300 trabalhadores já adoeceram por causa da covid-19 e ao menos 70 deles morreram. O vereador contou que apresentou indicação ao prefeito David Almeida (Avante) para incluir os rodoviários no grupo prioritário de vacinação, mas que ainda aguarda retorno do prefeito.

Ele reclama que os rodoviários estão sem proteção tendo que comprar máscaras e álcool em gel, alegação que o Sinetram nega. O parlamentar afirmou que o IMMU não exige a frota 100% na rua, nem nos horários de pico.

“Falta de fiscalização do IMMU que não tem efetivo para fiscalizar. Falta uma ação enérgica de cobrar a frota 100% na rua, se tiver toda na rua vai diminuir, vai melhorar. Até no horário de pico poderia colocar a frota toda na rua, depois pode aliviar, mas nem horário de pico está tendo’, criticou.

Medo de ser infectada

Com a intensificação da pandemia na cidade, a dona de casa Francisca da Silva, 56, tem evitado ao máximo usar o transporte coletivo. Hipertensa, ela teme que as aglomerações no ônibus possam ser um foco de transmissão em potencial do novo coronavírus.

Ao menos quatro vezes ao mês, a beneficiária do INSS, precisa recolher uma medicação de uso contínuo na Central de Medicamento do Amazonas, na Praça 14. Além de uma vez ao mês fazer acompanhamento psicológico em um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial, no Parque 10.

“Para mim, é muito difícil nessa pandemia me arriscar e pegar ônibus. Tenho medo de ser infectada mais uma vez, mas com sintomas mais fortes. É muita gente em cima da outra nesses ônibus, principalmente pela manhã, horário que eu preciso ir para os meus compromissos. Não tenho muita escolha, tenho que me arriscar, porque não tenho carro e nem sempre posso pagar Uber”, reclamou.

Ela relata que algumas pessoas no coletivo depois que passam pelo cobrador, costumam baixar a máscara. “Isso me incomoda muito, é mais uma via que pode infectar as pessoas. Eles [usuários do transporte] não pensam no risco para as outras pessoas”, queixou-se.

Risco pode ser reduzido

A infectologista Ana Galdina aponta que o ambiente aglomerado do transporte público da capital é um "caldeirão" não só para a covid-19, mas para outras síndromes gripais que são sazonais e típicas deste período de inverno.

Para ela, o ônibus é um local impossível de se manter o distanciamento social, mesmo com a conscientização dos usuários. Medidas como ampliação da oferta de ônibus, ventilação interna e ampliação da higienização dos componentes internos dos veículos ajudam a diminuir o risco de infecção dos usuários.

“Um ajuste no funcionamento do horário da indústria, comércio e aulas também seria uma opção para evitar mais aglomeração nos ônibus, evitando que os horários das pessoas coincidissem. Distribuir essas pessoas em vários horários, por exemplo, a indústria abre às 07h00, o comércio poderia abrir às 10h00”, sugeriu.

No entanto, ela pondera que num cenário de escalada de infecções, como ocorreu a partir de dezembro no Amazonas, culminando com o ápice da segunda onda em 26 de janeiro com mais de 600 pessoas aguardando um leito de UTI, as medidas não surtiriam efeito, necessitando adoção de medidas mais restritivas.

"Óbvio que no índice de circulação do vírus maior, nem essas opções solucionam. Neste cenário, o ideal é baixar o índice de circulação. Aí, a solução é restringir totalmente a circulação das pessoas”, salientou a infectologista.


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