Sábado, 26 de Setembro de 2020
TRAGÉDIA EM FAMÍLIA

Caso Belota: sete anos depois, crime bárbaro que chocou Manaus ainda deixa marcas

O dia 21 de janeiro nunca mais será o mesmo para o coronel Mário Belota, que teve a filha, a ex-esposa e o cunhado assassinados pelo próprio sobrinho, que queria ficar com a herança da família



21/01/2020 às 07:46

O dia 21 de janeiro nunca mais será o mesmo para o coronel reformado do Corpo de Bombeiros do Amazonas, Mário Belota. “Já são sete anos sem a Gabriela. No começo, eu não podia nem ouvir falar nesse dia. O tempo vai passando e até hoje sofro muito”, diz Mário Belota, pai da universitária Gabriela Belota, que neste dia, no ano de 2013, foi assassinada junto com a mãe, Maria Gracilene Robert, e o tio, Roberval Robert.

O crime foi premeditado pelo filho de Roberval, 63, Jimmy Robert de Queiroz Brito, sobrinho de Gracilene, 55, e primo de Gabriela, 26, e executado por Rodrigo de Moraes Alves e Ruan Pablo Bruno Cláudio Magalhães. O crime foi motivado por uma herança avaliada em R$ 200 mil. Os três estão presos depois de julgados e condenados a 100 anos de prisão pelos três crimes.



A brutalidade dos crimes não atingiu apenas as vítimas assassinadas. O cachorro Yorkshire da família, Rick, foi morto por estrangulamento, após ser pendurado pela coleira no armador de rede da casa.

À época, um laudo apontou que Gabriela também foi estuprada enquanto era morta por Rodrigo, um dos assassinos e namorado de Jimmy. Ela morreu asfixiada por um plástico enquanto era estuprada por Rodrigo, segundo o Ministério Público do Estado (MPAM).

Morando com a mulher e um filho de 18 anos de idade no mesmo apartamento onde a filha e a ex-esposa foram assassinadas, o coronel ainda chora quando fala de Gabriela e sobre a forma como ela e a mãe foram mortas. “Hoje, nesse apartamento que já foi cenário da morte, são realizadas reuniões da igreja Presbiteriana que a minha esposa e o meu filho realizam”, diz.

Gabriela e sua mãe, Gracilene, assassinadas na madrugada do dia 21 de janeiro. Foto: Divulgação

Sonho interrompido

Belota revela que quando se aproxima o dia 21 de janeiro, uma semana antes ele já começa a sofrer. “Eu fico enjoado e nos últimos anos o coronel prefere sair de Manaus para ter a dor amenizada. Porém, há outras datas, como o dia 15 de abril, aniversários de Gabriela, o Natal e o Ano Novo, onde a falta da estudante do curso de Odontologia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) ainda dói e faz o pai chorar de saudades da presença dela que, para ele, era só alegria. “Até hoje sofro, essa dor continua e não tem jeito”, diz o pai.

Para o coronel, Gabriela era a filhona que sonhava em ser odontóloga, que amava a profissão e que teve sonho interrompido pela tragédia. Gabriela já estava cursando o último período quando foi morta. “A morte dela mudou a minha vida. Fiquei muito mais chorão e sensível. Mesmo que a gente queira desaparecer, sempre vem a lembrança e a dor”, afirma. Ele guarda fotografias e presentes (relógios) que ganhava da filha nas datas comemorativas.

Mário Belota afirma que, para ele, depois de ter sepultado a filha e a ex-esposa, o pior momento foi durante a cerimônia de formatura da 15ª turma do curso de Odontologia, quando foi feita homenagem póstuma à Gabriela. Ele foi convidado especial e participou da cerimônia de outorga de grau ocupando o lugar que seria da filha.  A turma levou o nome de Gabriela e há um quadro com a sua fotografia na galeria de formandos da UEA.

Homenagem póstuma garantiu o certificado de odontologia de Gabriela pela UEA. Foto: Reprodução/AC

O coronel diz que além dele, o filho Henrique, que na época do crime tinha 11 anos de idade, sofre muito mais. “Foi difícil para mim e mais ainda para o nosso filho que era muito ligado a ela. Gabriela sempre ia a nossa casa, no bairro da Compensa, e ele vinha até a casa dela, era muito bem tratado pela Gracilene. Os dois iam muito ao cinema, o Henrique sentiu bastante, a morte foi muito dolorida para nós e para a minha atual mulher, a advogada Kethlen Belota”, disse.

Henrique escolheu a mesma profissão da irmã e está cursando o segundo período de Odontologia. Ele usa alguns instrumentos que eram de Gabriela.

Condenação

Quanto ao mentor e aos executores do crime, o coronel Mário Belota tem a certeza que a Justiça foi feita: os suspeitos foram condenados.  Jimmy teve sentença reduzida de 100 para 97 anos. “A minha vontade é que apodrecessem lá dentro. Uns vermes desses não têm ressocialização nenhuma”, disse o coronel a respeito dos criminosos que mataram a sua filha e a sua ex-esposa.

Belota disse que nunca quis conversar com o primo de Gabriela. “Eu não o perdoo nunca. Como perdoar um desgraçado desse pelo que fizeram com a minha filha e ex-esposa e com o próprio pai. Se eu perdoasse uns assassinos desses, eu acho que a juíza que o condenou ia mandar me prender” desabafou.

Trio condenado pelo crime bárbaro que ficou conhecido como "Caso Belota". Foto: Arquivo/AC.

De acordo com o pai de Gabriela, caso um dia ficasse frente a frente com Jimmy e seus comparsas, não sebe qual seria a sua reação. “Eu não diria nada. Não sei o que eu faria com esses três vagabundos. Não responderia por mim mesmo. O cara foi criado aqui dentro da minha casa e fez isso com a milha filha”, afirmou.

Em 2015, o Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) reduziu as penas dos três réus condenados no que ficou conhecido como “Caso Belota”. O 2º Grau do judiciário reavaliou a decisão da primeira instância, reduzindo 15 anos da pena de prisão do publicitário Jimmy Robert de Queiroz Brito. Rodrigo de Moraes Alves e Ruan Pablo Bruno Cláudio Magalhães tiveram as penas reduzidas em 24 anos.

 

De acordo com informações da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), o publicitário Jimmy está em cumprimento de pena isolado em uma cela do Centro de Detenção Provisória Masculina (CDPM) 2, onde não recebe visita de familiares, só de advogados.

O isolamento é por medidas de segurança. Ele chegou a ser colocado para prestar serviços para remissão de pena como serviços gerais, mas acabou sendo tirado, pois passou a levar recados de um lugar para outro dentro da unidade prisional. A reportagem de A Crítica não foi informada pela Seap sobre Ruan e Rodrigo. 

Repórter de A Crítica

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