Segunda-feira, 03 de Agosto de 2020
Silene Kunrath

'A merenda escolar deturpa o perfil alimentar dos ribeirinhos', diz ativista social

Enfermeira gaúcha após um encontro com populações ribeirinhas e indígenas, em Benjamim Constant, decidiu trabalhar pelo resgate da identidade alimentar desses povos a partir de produtos locais



ativista_5965B060-8BF1-4E35-81A3-0FF9E05C9BD6.JPG Foto: Raine Luiz
08/12/2019 às 14:57

Farofa de mangará, peixe ao molho de pupunha, cupulate e corantes para a tapioca feitos de sementes de coirama ou urucum são propostas para revolucionar a política alimentar do Amazonas, compiladas num livro chamado Receitas de Cozinha Nativa: Sabores do Alto Solimões.

Disponível na internet, uma das ideias é usar como  cardápio para a merenda escolar. O livro é resultado do apoio de diversas entidades, e organizado pela Associação Caminhos de Abundância na Amazônia. A presidente, Silene Kunrath, é uma enfermeira gaúcha que após uma imersão com indígenas em Benjamim Constant decidiu trabalhar pelo resgate da identidade alimentar. Confira abaixo.



O que  chamou atenção nos hábitos alimentares das pessoas?

Vi que as pessoas não consumiam verduras; porque no Sul sempre falamos de saladas e as vitaminas que têm nas verduras, e foi preocupante para mim. Pedi para trazerem as coisas que se comiam. Quando peguei o umari e vi a quantidade de óleo que tem na polpa da fruta e na cor dela, um laranja forte, virou para mim uma manteiga porque é só raspar o caroço, e você passa na tapioca. Eu acho que temperar alguma coisa deve ser uma delícia.

É esse o objetivo [do livro]. A gente experimentar, fazer coisas com o que tem aqui e podermos adaptar com a culinária de fora.  Me espantava a quantidade de alimentos que vinha de fora. Arroz, óleo, para as frituras que as pessoas iam consumindo muito, macarrão, pão, que começou a aumentar de consumo também, refrigerante. Quando íamos fazer atividade em alguma comunidade indígena, víamos as crianças nos intervalos da escola comendo militos, em Benjamim Constant e municípios do entorno tipo Belém do Solimões. Conversando com outras pessoas, a realidade é praticamente a mesma. Vi crianças com desnutrição calórica e proteica. Isso também se dá pela violência doméstica, abuso de álcool, e crianças que não são amamentadas porque a mãe vai embora e deixa com a avó.

Quando surgiu a ideia de promover uma reeducação alimentar? Foi assim que começou a associação?

As frutas daqui de cada época tem um teor calórico, de fibra e de vitaminas que supera todas as frutas dos outros lugares. Temos o camu-camu que é a fruta que tem a maior concentração de vitamina C do mundo. O bioma amazônico sustenta a população daqui, podemos ficar tranquilo. Quando chegaram os europeus, os indígenas já viviam aqui muito bem, obrigado.

Conheci uma ONG chamada Fucai e vi que ela  fazia trabalhos que poderiam ser aplicados aqui. Eles já trabalhavam na Amazônia peruana e colombiana, e depois de alguns meses, foram para Benjamim e me chamaram para uma conversa. Plantamos a semente daquele projeto de soberania alimentar e agroflorestas para o território do Amazonas. Aí fomos aprender todo o ciclo e a metodologia deles, e fizemos cozinhas nativas, roça sem queima, produção de fertilizantes orgânicos. É uma semana de imersão que vêm pessoas de diversos lugares interessadas em apoiar iniciativas locais e fortalecer a autonomia dos povos. Vemos o que tem de científico e cultural que fortalece a comunidade e  a escassez e a abundância, no que elas interferem no desenvolvimento da autonomia da comunidade.

Na Agroecologia já existe um arcabouço de trabalho sem necessitar de nenhum químico e nenhum elemento vindo de fora, inclusive sem precisar adquirir sementes de outros estados. Essa é a forma, inclusive, de como os indígenas historicamente conseguiram viver. Tem alguns grupos étnicos que cultivam e fazem malocas, e tem grupos nômades que só coletam e caçam, vivem do que está na época e sabem a época de tudo; o que tem em cada tempo e vivem disso, é o minimalismo na sua essência. Não é pra qualquer um. Não dá para chamar de preguiçoso um povo que vive desse jeito.

Por que você não foi direto nas comunidades?

Peguei licença não remunerada do município para ir com mais força, entendendo o que era de alimentos que a gente deveria priorizar para restabelecer a saúde e a nutrição das pessoas, lembrando do arroz, que passa por processo industrial de descascar, de conservar, empacotar e vender, do macarrão e pão, transgênicos, conservantes, agrotóxicos, e todo o arcabouço que faz mal. Fui demitida sem justa causa. Começamos a perceber o que temos de potencialidade e não estamos reconhecendo. Na metodologia da Fucai, as comunidades conseguem se enxergar nisso, e é a parte importante. Vem da necessidade de resgatar, e se autoafirmar, porque todo mundo de repente fala mal, e discrimina os indígenas, deixando-os à margem ou implantando política públicas que não tenham a ver com a realidade que eles queiram ou necessitem, criando confusão.

Se recebem Bolsa Família para ter um nível de vida um pouco melhor, esse recurso é usado pra comprar arroz, refrigerante, milhitos ou álcool, e não  para continuar com a produção agrícola para o seu consumo, comprar caixa d’água, motor rabeta. E esses alimentos chegaram sem que as pessoas tivessem a chance de serem esclarecidas sobre o seu modo de produção, desvalorizando os que vêm daqui. De repente, se torna mais fácil abrir um pacote de macarrão do que descascar uma macaxeira ou banana para preparar a comida. E esse hábito também começou a ser distribuído através da merenda escolar. Acho que é um dos pontos mais importantes de se deturpar o perfil alimentar das populações indígenas e ribeirinhas do Amazonas. E isso precisa ser revisto com urgência.

Como você criou o livro?

Vimos a grande variedade de preparados que conseguimos fazer num dia de imersão só com alimentos colhidos na comunidade; uns 36 diferentes. As pessoas perguntavam sobre as receitas e um dos grupos conseguiu fazer um livretinho, e depois escrevemos todas. Elas mesclam preparados tradicionais com influências externas, porque, se tomam refrigerante, por que não vão querer comer bolo? E misturamos essa criatividade ao que se produzia no local. Quando olhamos para a pirâmide alimentar, é contemplado todos os nutrientes para um excelente desenvolvimento desde a primeira infância até a velhice, passando por gestantes, adultos com restrição alimentar e tudo o mais. Tivemos uma doação de um casal espanhol e trabalhos voluntários, como o Conselho Indigenista Missionário. Quando vimos que ele realmente tinha ficado bom e necessário, ampliamos as distribuições. A Misereor, financiadora alemã, aceitou nosso projeto. Já temos material para uns dois livros, sobre sementes, adubos; como um mapa nutricional do Amazonas.

Em paralelo, como lidar com o garimpo ilegal e a dificuldade de acesso ao mercado que os produtores rurais sofrem?

Uma das maneiras mais práticas é se comprasse não 30% dos produtores para a merenda escolar, mas 100% dos agricultores daquela cidade. O dinheiro que vem para a merenda é  menor que o custo do envio dessa merenda para as comunidades. A solução é comprar direto das comunidades, isso estimula eles a semearem e cultivarem porque vão ter garantia de venda. A competição é desleal com o agronegócio, que leva carne enlatada para as crianças. Quando vemos esse resgate de identidade, todo mundo limpa sua planta de café para ver a florzinha de novo para dar semente. É uma cadeia de valor gerada, dando mais infraestrutura para a zona rural. 

Isso resolveria o problema das rações da piscicultura, por exemplo?

Pupunha, semente de ingá, goiaba, caju, jambo, manga; eles comem as frutinhas que caem dentro dos rios, dos açudes. Caroço de cupuaçu, que o povo joga fora. O problema é que querem fazer ração com as coisas vindas de fora, seguindo o padrão de fora. O bioma amazônico alimenta os peixes amazônicos, não precisa de nada. O que vejo é que temos espaço muito mal aproveitado. Se o governo escoasse tudo o que é possível produzir dentro das agroflorestas, é uma lista sem fim de alimento para peixe. Imbaúba faz parte da floresta de regeneração que aduba a terra, e aqui o povo queima.

Perfil

Nome: Silene Kunrath
Idade: 48 anos
Link do livro: www.misereor.org/ pt/publicacoes/
Estudos: Bacharel em Enfermagem pela Universidade Franciscana
Experiência:  Trabalhou com atenção básica na área indígena e experiência hospitalar. Ativista social e família substituta no Conselho Tutelar de Benjamim Constant. 

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Jornalista
Formado pela Faculdade Boas Novas. Pós-graduando em Assessoria de Comunicação e Imprensa e Mídias Digitais. Com passagens por outros veículos locais, hoje atua nas editorias de política e economia de A Crítica. Valoriza relatos humanizados e contos provocativos do cotidiano.

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