Quinta-feira, 22 de Abril de 2021
DESENVOLVIMENTO

Projeto vai aliar preservação e geração de renda para comunidades da Amazônia

Chamado de 'Amazon Biobank', o trabalho irá reunir um banco de dados com sequenciamento genômico de várias espécies da floresta. Os dados serão coletados pelos próprios moradores locais e adquiridos por outras indústrias



123123123_6246C5F1-E612-483E-BC25-1617777B12BB.jpg Foto: Arquivo/AC
26/02/2021 às 14:36

Com o olhar voltado para o desenvolvimento socioeconômico da Amazônia, um projeto pioneiro busca gerar renda para comunidades residentes, preservando a biodiversidade da região. Chamado de "Amazon Biobank", o trabalho terá uma arquitetura técnica desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) liderados pelo professor e membro do Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos (IEEE), Marcos Simplício. O projeto deve começar a partir de 2022.

O banco de dados vai armazenar o sequenciamento genômico de várias espécies da floresta, coletados pelos moradores locais, que podem ser adquiridos pela indústria farmacêutica, cosmética e alimentícia. A iniciativa faz parte do Projeto Amazônia 4.0, desenvolvido pelos irmãos Ismael e Carlos Nobre. No Laboratório de Criação Genômica, a comunidade será treinada para fazer o sequenciamento genômico da espécie.



Segundo o professor Marcos Simplício, os trabalhos desenvolvidos pelo projeto irão beneficiar a população que reside na Amazônia, como também a indústria, no quesito de explorar os recursos sem agredir o meio ambiente.

"Os benefícios são relacionados à capacidade de explorar os recursos naturais da região de forma realmente sustentável, baseada em uma política de "floresta em pé". Primeiramente, há um benefício econômico: a ideia é que os habitantes da região, em parceria com ONGs, consigam uma fonte de renda ao auxiliar no mapeamento do DNA de espécies únicas na Amazônia, além de eventualmente compartilhar conhecimento tradicional sobre essas espécies (e.g., aplicações farmacêuticas, cosméticas ou alimentícias). Esse tipo de dado é de interesse não apenas acadêmico (e.g., por biólogos), mas também pela indústria de biotecnologia. Afinal, diversos produtos que usamos hoje vieram exatamente da observação de seres vivos que os produzem naturalmente, a penicilina sendo um dos exemplos mais clássicos. Além disso, cria-se um benefício social importante", comentou o pesquisador.


Simplício comenta ainda que o projeto trará como consequência a valorização dos conhecimentos dos povos da Amazônia e a preservação da área florestal da região. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

"Isso vem não apenas do fluxo monetário que se espera a partir do benefício econômico supramencionado, mas também de uma maior valorização dos conhecimentos de populações locais. Não é incomum ouvir histórias de expedições estrangeiras que visitaram a Amazônia e se apoderaram de conhecimento local para benefício próprio, sem qualquer retorno para os reais detentores desse conhecimento. Espera-se que a criação de um mecanismo que dá valor econômico a esse conhecimento leve (1) à sua valorização e (2) a uma maior propensão a compartilhá-lo, sabendo-se claramente quais serão os benefícios associados em fazê-lo. Finalmente, mas certamente não o menos importante, existe um ganho para o meio ambiente de forma geral: a preservação da área de floresta nativa da Amazônia é essencial para regular o regime de chuvas e a temperatura de diversas regiões do país. No final, o próprio agronegócio (um componente muito importante do PIB brasileiro) deve se beneficiar dessa proteção", comentou Simplício.

Preservação da Amazônia

A Amazônia é um dos biomas mais ricos em biodiversidade do mundo. Estudo de pesquisadores brasileiros e publicado pela Agência Fapesp revelou que existem 14.003 espécies de plantas com sementes, das quais 52% são arbustos, cipós e ervas. As árvores são representadas por 6.727 espécies. Muitas dessas plantas possuem características bioquímicas ainda desconhecidas pela humanidade, como novas moléculas, enzimas e antibióticos naturais que podem eventualmente ser utilizados pela indústria e promover o desenvolvimento socioeconômico da região. Segundo Simplício, ainda há muitas espécies que não foram catalogadas.


Comunidades da Amazônia poderão participar da pesquisa e gerar renda. Foto: Arquivo/AC

"Por outro lado, o que posso dizer por conversas com especialistas é que o próprio fato da floresta ter uma dimensão gigantesca e não ter várias regiões de difícil acesso indica que existem muitas espécies ainda a ser catalogadas: algumas são de uso comum por populações locais, mas não necessariamente estudadas o suficiente para se saber todo o seu potencial; outras, ainda precisam ser descobertas. Espera-se que o projeto amplie esse conhecimento da humanidade sobre a floresta, o que tem potencial incomensurável de benefícios", destacou o professor.

O projeto também promoverá a preservação da "floresta de pé", de forma indireta; e auxiliará no estudo de espécies nativas (plantas e insetos), de forma direta.

"De forma indireta, o projeto promove a preservação da floresta de pé, a partir da percepção de que é possível ter ganhos financeiros sem depender da extração de recursos naturais de forma pouco ou nada controlada. Assim, o habitat natural da flora e fauna de espécies com risco de extinção é preservado. De forma mais direta, é provável que o estudo de espécies nativas (em especial de plantas e insetos) leve à identificação de usos interessantes pela indústria, incentivando a preservação e mesmo a replicação dessas espécies em particular", ressaltou.

Tecnologia

Para garantir os direitos de propriedade intelectual deste trabalho, o laboratório utilizará um sistema de blockchain colaborativo. Operando como livro de registro digital, esse sistema garantirá a transparência e a rastreabilidade das contribuições de cada indivíduo ou organização não governamental (ONG) ao biobanco. Haverá também um sistema de busca de espécies documentadas, um sistema de proteção de dados e mecanismos para entrega de sequenciamento genômico às partes interessadas. “O mecanismo de distribuição de dados para destinatários precisa ser muito robusto, porque estamos falando de muitos gigabytes ou até terabytes por sequência de DNA”, explica o líder do projeto.

A pesquisa

O pesquisador Marcos Simplício, que é um dos especialistas em tecnologia do projeto, comenta que o projeto ainda está em fase inicial, pois é necessário realizar alguns testes que devem dar suporte ao banco de dados. Além disso, o Amazon Biobank conta com o patrocínio da University Blockchain Research Initiative (URBI) (https://ubri.ripple.com/).

"O projeto encontra-se em uma fase piloto: estamos definindo os requisitos e testando as tecnologias que devem dar suporte à solução (Blockchain é uma delas, sendo seu uso voltado a gerenciar a "economia digital" do sistema). Em uma analogia com a Engenharia Civil, pode-se dizer que estamos "preparando o alicerce da edificação". Para isso, contamos com o patrocínio da University Blockchain Research Initiative, uma iniciativa da empresa americana Ripple com mais de 40 universidades no mundo (no Brasil, fazem parte da iniciativa a USP e a FGV). Mencionar o patrocínio é relevante porque, embora o projeto "Amazonia 4.0" do qual o Biobanco faz parte seja mais amplo e anterior à UBRI, a Ripple abraçou a ideia do Biobanco e tem dado todo o apoio para que esse projeto piloto seja um sucesso", acrescentou.

Sobre o IEEE

O IEEE é a maior organização profissional técnica do mundo dedicada ao avanço da tecnologia em benefício da humanidade. Seus membros inspiram uma comunidade global a inovar para um futuro melhor por meio de seus mais de 420.000 membros em mais de 160 países. Suas publicações, conferências, padrões de tecnologia e atividades profissionais são recomendadas por diversos especialistas. O IEEE é a fonte confiável para informações de engenharia, computação e tecnologia em todo o mundo.


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