Terça-feira, 22 de Junho de 2021
TESTEMUNHAS DA HISTÓRIA

Indígenas da Amazônia apresentam relatos de violações

Relatos coletados no evento virtual "Abril Indígena" constituem um mapa vivo, com voz própria, das atrocidades a que estão sendo submetidos esses povos da região



abril_indigena_EFD2625A-E38A-43FD-8192-972F10566212.JPG
07/05/2021 às 17:07

Das denúncias pontuadas às revelações coletivas, indígenas apresentaram na mobilização virtual "Abril Indígena", realizada nos dois dias 29 e 30, um quadro ampliado das violações de direitos dos povos indígenas no Amazonas. Os relatos constituem um mapa vivo, com voz própria, das atrocidades e da prática genocida a que estão sendo submetidos os indígenas. A pergunta que fica é: qual o passo a ser dado após o escancaramento das violações?

A Mobilização Abril Indígena ocorreu nos dias 20 e 30 de abril, por iniciativa da Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDDI), do Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas (FOREEIA) e do Acampamento Terra Livre (ATL), com apoio da Associação dos Docentes da Universidade Federal do Amazonas (ADUA). A seguir trechos dos relatos feitos:



Graves ameaças aos Índios autônomos, livres ou isolados do Vale do Javari:

Líderes indígenas do povo Kanamari, em nome do povo Mayoruna, Marubo, Matis, Kulina-Pano e povos de recente contato (Korubo e Djohum Djapá), disseram: “A terra indígena Vale do Javari está localizada na Amazônia, na fronteira do Brasil com o Peru. O Vale do Javari é a região onde existe a maior concentração de povos isolados no mundo. Os invasores - garimpeiros, madeireiros, caçadores e pescadores - agem com total liberdade. Eles são encorajados pelo governo federal, assumidamente contrário aos direitos indígenas e pela fragilização do sistema de proteção de índios isolados da Funai. A situação é ainda mais crítica com a propagação da Covid-19 em todo Vale do Javari o que pode provocar o genocídio dos parentes isolados. Pedem apoio para recomendar ao governo brasileiro à recomposição e ampliação imediata da capacidade operacional das Frentes de Proteção Etno-Ambientais da Funai para desempenhar de maneira eficiente a fiscalização e proteção, a integridade territorial e a segurança sanitária aos povos indígenas em isolamento voluntário”. Por fim, declaram: “o Vale do Javari pede socorro quanto à segurança dos parentes isolados”.
  
Processo de genocídio do povo Juma com a morte do último homem Aruká pelo covi-19:

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi/Regional Norte I) apresentou uma síntese do processo que chama de genocídio do povo Juma:  O povo Juma é oriundo da Região do Tapajós e de lá saiu fugindo dos genocídios. Encontra-se hoje no Médio Purus, Região do Tapauá. Os Juma sofreram um massacre em 1964 que só foi conhecido 15 anos depois, em 1979, por denúncia do Cimi. Só nove pessoas sobreviveram ao massacre. Esse pequeno grupo de sobreviventes foi contatado pelos missionários da missão evangélica Summer Institute of Linguistics (SIL). No final de 1990, contra a vontade dos indígenas, foram retirados pela Funai e levados para o Estado de Rondônia, na terra dos Uru-Eu-Wau-Wau. Só retornaram depois de 12 anos, cumprindo decisão da justiça federal, agora em um pequeno grupo, Aruká (o único homem Juma sobrevivente) e suas três filhas com seus filhos de casamentos com os Uru-Eu-Wau-Wau. Em fevereiro de 2020, Aruká morre vítima do Covid 19. Foi contaminado na própria aldeia onde não havia barreira sanitária, o que poderia ter impedido a chegada do vírus na aldeia. Morreu o último homem Juma, por negligência do estado. Há uma esperança a partir de estudos preliminares que indicam existir um grupo de Juma isolados na região dos Igarapés do Onça e do Jacaré, que seriam sobreviventes do massacre de 1964. Esse grupo sofre sérios riscos pela construção de uma estrada sem licenciamento e que passa a poucos quilômetros da região habitada por eles. A história dos Juma não terminou. E a tragédia pode se repetir! 

Massacres de indígenas e ribeirinhos no rio Abacaxis – Lideranças Maraguá e Mundurucu do município de Nova Olinda do Norte:

Liderança do povo Maraguá lembrou que a terra desse povo é ancestral, porém não demarcada. “Sofre invasões constantes. Há muitas invasões de garimpeiros, madeireiros e invasão de pescadores-esportivos. A comunidade fazia controle autônomo das entradas e negou permissão para um barco de um grupo de pescadores-esportivos. Houve conflitos graves, como foi amplamente noticiado. Dias depois, policiais foram ao local. Houve prisão, tortura e morte de indígenas e ribeirinhos. A violência continua até hoje. No momento em que os indígenas precisam de apoio para o seu território, o Estado se volta contra eles. Lideranças sofrem ameaças constantes, sem poder sair (para pescar, para caçar, para plantar). Estão sitiados em suas próprias terras. A proteção solicitada não veio. O medo e a revolta continuam, agora agravados pela Covid-19. Sofrem com a negação da sua identidade indígena por parte da sociedade invasora. O povo está acuado: as invasões continuam e aumentam a cada dia. O Ministério do Meio Ambiente, por meio do ICMbio, está fazendo levantamento/inventário de toda madeira existente. A recomendação das autoridades é de que a comunidade não reaja. Assim não podem continuar o controle autônomo de suas terras. 

Invasões de madeireiros e abandono do poder público – povo Sateré-Mawé, Município de Maués:

Relato apresentado por uma testemunha local (nome não citado por medida de proteção): ”Desde o ano de 2018 há notícia do processo de invasão de madeireiros nas terras tradicionais e avançam em direção às terras Sateré-Mawé. Em 2018, uma barreira de vigilância foi criada pelos tuxauas para proteger o território. São 60 indígenas que guarnecem e se revezam na barreira. Há ausência do Estado (municipal, estadual e federal) o que prejudica o povo Sateré-Mawé na região do Marau”. Pedem apoio pois há pressão contra os tuxauas e outras lideranças na barreira. 

Invasões sistemáticas de garimpeiros na Terra Yanomami:

De acordo com a Coordenação da Associação Yanomami Kurikama (Município de Santa Izabel do Rio Negro): “A nossa vida quer respirar bem, sem ser influenciada. A nossa saúde não está bem. Tem muito problema. A SESAI está devagar. Está difícil agora. Por isso, está cheio de malária. Todos na comunidade estão doentes. O que precisamos? Da melhoria na nossa saúde, saúde de todos, não só os Yanomami. Nossa raiz não está respirando bem. Queremos apoio. Hoje temos Covid-19. Chegou na área Yanomami. Já pegamos, já tivemos mortes. Estamos tristes. Precisamos acabar com Covid-19.  Os adultos já vacinaram. E as crianças? A ameaça do garimpo estava se aproximando. Aí criamos, em 2013, a Associação KuriKama. Nós não queremos deixar construir o garimpo dentro da área Yanomami. Não queremos! Nosso território está homologado. Os órgãos podiam respeitar nossos direitos, reconhecer nossa realidade, respeitar nossas crenças. Têm que fazer consulta. Queremos que consulte os donos da terra. Somos nós que decidimos. Quem manda somos nós, donos do território. Queremos demarcação para todos os outros parentes. Para não destruir nossos direitos. Na educação está tudo parado. Essa luta não vai acabar, nem hoje nem amanhã. Vamos continuar! Pelos nossos filhos e netos”

Mortes em série de indígenas Kokama no Alto Solimões:

Relato apresentado por liderança do povo Kokama: “Os Kokama vivem na tríplice fronteira Brasil/Colômbia/Peru. São o povo mais atingido pela Covid-19 no Amazonas. Foi o primeiro povo indígena a ser contaminado aqui no Amazonas. A contaminação foi trazida por um médico, voltando de férias. A primeira Kokama que adoeceu e morreu era uma Agente Indígena de Saúde. Já morreram 85 pessoas. Os Kokama vivem momentos difíceis nos municípios do Alto Solimões. Há descaso por parte dos governos federal e estadual. Os prefeitos se esforçam mas há ausência do Estado. Parece que somos só um número nas estatísticas. Os mortos estão sendo enterrados em valas e identificados erradamente como ‘pardos’. Somos violados até no último momento da vida. Há um empobrecimento cultural com a perda dos anciões, os professores estão morrendo. Fazemos esforço para evitar as mortes utilizando a medicina tradicional. Estamos abatidos, mas não desistimos! Necessitamos da ajuda de todos no Alto Solimões. Que nossos ancestrais nos protejam, pois a pandemia não acabou.” 

Violações de direitos na saúde indígena: exclusão de indígenas residentes em contextos urbanos de prioridades de vacinação:

Relato apresentado pela Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime):  “A questão do acesso ao direito à saúde aparece forte na pandemia da Covid-19. Essas violações de direitos têm origem e raízes colonialista. Foram criadas divisões por um sistema que nos divide como indígenas. A distinção entre indígenas aldeados e da cidade é questão criada pelo não índio. A presença dos indígenas na cidade sempre existiu, pois são as cidades que estão chegando aos indígenas. E os indígenas precisam ser reconhecidos como indígenas na cidade. O não reconhecimento da identidade é também o não reconhecimento do direito ao território. Há negação do direito à educação diferenciada e à saúde diferenciada. É necessário repensar a questão da territorialidade. Em 2020, no Hospital de Campanha, específico para atendimento a indígenas, os indígenas da cidade não tiveram acesso ao hospital. Há também o não acesso diferenciado às campanhas de vacinação, como foi com a vacina da gripe e agora a da Covid-19. Precisa ser feita uma mudança de conceito: são todos indígenas, estejam onde estiverem, nas aldeias ou nas cidades”.  

Violações de diretos na educação indígena, tais como, exclusões de línguas e saberes indígenas dos currículos e de professores de línguas e de culturas indígenas, entre outras:

Relato apresentado por liderança Baniwa do Rio Negro: “Em São Gabriel da Cachoeira mais de 90% da população é indígena. São 23 povos, quatro famílias linguísticas, 18 línguas faladas e quatro línguas co-oficializadas. Há um Subsistema de Educação Escolar Indígena, e foi criada a categoria ‘professor indígena’. Atualmente há desgaste e desvalorização da educação escolar indígena. O novo governo municipal fez exclusão de professores de línguas indígenas em recente edital e a inclusão de línguas estrangeiras (inglês e espanhol). Houve pressão de lideranças e organizações e acenaram com a promessa de correção que não se concretizou. As escolas são espaços importantes para implantação dos Planos de Gestão Etno-Territorial. No Município de Amanã, as línguas indígenas das escolas indígenas foram excluídas. Essa exclusão contribui para a morte cultural. É uma forma de genocídio.” 

Negacionismo de missionários que provocam recusa de indígenas à vacinação:

Relato apresentado por liderança do FOREEIA: “Não são poucos os casos de interferências diretas de alguns missionários que fazem manipulação das mentes indígenas, principalmente aqueles que estão mais distantes. Há relatos sobre comunidades que resistem à vacinação por influência de religiosos fundamentalistas. Essa é uma violência que mata, a exemplo do povo Jamamadi, no Purus, caso amplamente divulgado na imprensa, quando missionários atuavam para convencer indígenas a não se vacinarem, levando o próprio povo a resistir à vacinação, impedindo inclusive que as equipes de vacinação entrassem na aldeia. É uma guerra...  As igrejas fundamentalistas têm discurso alinhado com o atual governo. Fazem parte do mesmo projeto político: ser contra a vacina e ser a favor da morte. E a missão de um missionário deveria ser defender a vida, o amor ao próximo. A posição contra a vacina não pode ter respaldo do ponto de vista religioso; só pode ser explicado do ponto de vista político. Há um projeto político de cunho fascista de eliminação de grupos, como nós indígenas, considerados como estorvo”. 


Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.