Terça-feira, 22 de Junho de 2021
Esportes

Federações tentam resgatar investimento nos esportes olímpicos praticados no AM

Associação das Federações Olímpicas do Amazonas busca melhorias para atletas e profissionais envolvidos em esportes de alto rendimento no estado



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06/05/2021 às 21:14

Um dos fenômenos sociais de maior impacto na sociedade é o esporte. Mas o que fazer quando políticas públicas não conseguem se fazer presentes, desprestigiando formadores de novos atletas?

Sentindo-se com o 'pires na mão', representantes da Associação das Federações Olímpicas do Amazonas (AFOAM), que atualmente conta com 12 representantes (Wrestling, Judô, Taekwondo, Vôlei, Basquete, Handebol, Natação, Levantamento de peso olímpico, Badminton, Ginástica, Boxe, Atletismo), tentam sensibilizar lideranças políticas para tentar valorizar o fomento ao esporte no Amazonas. Em entrevista exclusiva ao A Crítica, o presidente da AFOAM, Waldeci Silva - presidente da Federação Amazonense de Luta Livre Esportiva e Olímpica -, e o vice Tadeu Picanço - presidente da Federação Amazonense de Voleibol - explicaram o atual estado das federações.



Os dirigentes fizeram questão de ressaltar a excepcionalidade do momento adverso - vivido por conta da pandemia ainda em curso da Covid-19 -, porém, afirmando que tais dificuldades já existem há vários anos.

"A gente já vem de longa data, tendo uma decaída muito grande no investimento do esporte amazonense, hoje é muito pouco. Nós, de alto rendimento, sobrevivíamos com algumas modalidades quando existia o Centro de Treinamento de Alto Rendimento do Amazonas (CTARA), alguns anos atrás. A partir dali, perdemos o apoio do governo federal e o centro de treinamento passou a ser gerido pelo governo do estado. O CTARA tinha começado a evoluir e isso beneficiou muita gente. Nós, como presidentes de federações, temos uma carência muito grande de atendimento, de ter um apoio na parte estrutural de treinamento, na estrutura física, no atendimento multidisciplinar. Nisso, o CTARA ajudava" comentou Tadeu.

"Havia atendimento de fisioterapia, alimentação, tínhamos espaços para intercâmbio do Amazonas e outros estados. Em 2017 fizemos um intercâmbio com outros países, tudo coordenado pelo CTARA, recebemos atletas de todo o Brasil. Hoje, não temos mais esse espaço. Quem faz esse tipo de atendimento, desculpe a palavra, 'capenga', são as próprias federações. Infelizmente, hoje andamos com o pires na mão mesmo, porque não há suporte", declarou Waldeci.

Treinadores desprestigiados

Em meio a dificuldade pelo pouco apoio que recebem, a AFOAM constatou uma grave desvalorização de profissionais de educação física, qualificados para os treinamentos de jovens atletas. Para o vice-presidente da associação, sem fundos para remunerar de forma justa o profissional, cria-se um precedente perigoso que coloca em risco a integridade física dos desportistas.

"Hoje as pessoas deixam de vir treinar porque não compensa. Você gasta dinheiro do bolso para se capacitar, mas no final, você sabe que não vai ser remunerado. E afastando profissionais sérios, você acaba abrindo caminho para aqueles que só querem se aproveitar e no final, quando descobrimos, a pessoa já aliciou os seus atletas e isso é muito ruim".

Tadeu ainda ressaltou que existem meios que podem atenuar a crise que as entidades enfrentam, como a criação de projetos que tragam a iniciativa privada para perto da associação e das federações.

"É preciso entender que o profissional sério, que o treinador, precisa ser remunerado. Se tivéssemos uma política em que houvesse um projeto, que começasse a subsidiar empresas privadas que devessem ao estado e que pudessem investir no esporte, seria um investimento para desenvolvimento do desporto e para a qualidade da educação".

Necessidade de incentivo

Presidente e vice da AFOAM contextualizaram o momento de forma geral de todo o país, fazendo comparações que expuseram a forma como vem sendo tocada a administração em relação aos esportes de alto rendimento, tecendo críticas a escolhas feitas ao longo dos anos para gerenciamento de pastas, rotatividade nos cargos por questões políticas e o distanciamento que vem acontecendo entre federações e investimentos.

"O Brasil inteiro não tem uma estrutura adequada para o desporto. Se for feita uma pesquisa, a gente vai ver que a maioria das confederações são dependentes do estado, são poucas as federações que conseguem sobreviver com os próprios resultados. São aqueles resultados que você trouxe e mostrou ao mercado, que aderiu à modalidade e que te coloca em evidência a nível mundial. E aí entramos nessa relação de ‘Confederação x Federação’, já que pouquíssimas confederações ajudam no desenvolvimento do desporto nos estados", explicou Tadeu, ressaltando que a presença do apoio estadual é fundamental para o desenvolvimento das federações.

"Precisamos ter o Governo do Estado do Amazonas atuando junto às federações, proporcionando possibilidades e a abertura dos espaços físicos e ajudando a realizar competições locais, ajudando na descoberta de talentos" disse Tadeu.

"Hoje temos uma deficiência muito grande em estrutura e esse é um sentimento de todos os presidentes de federação, não à toa, começamos a caminhar juntos para tentar solucionar esses problemas com os nossos políticos. E isso tudo vai muito além, porque não temos programas de políticas públicas voltadas para o esporte no Amazonas. Entra governo, cria um projeto, acaba o mandato, o projeto acaba. No outro governo, começa tudo de novo. O Amazonas é um dos principais estados que mais arrecadam e é o único que não tem lei de incentivo ao esporte. Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina, os estados do Nordeste, o Amapá, com menor arrecadação que o Amazonas, tem lei de incentivo e aqui não tem", complementou Waldeci, devolvendo a fala à Tadeu.

"Precisamos de uma política de incentivo ao esporte perene, em que entrando e saindo governo, ela tenha continuidade. A gente não pode viver de ciclos e o esporte no Amazonas vive de ciclos. O esporte nos trouxe muitos resultados, o próprio Waldeci na luta trouxe resultados fantásticos e, com isso, tínhamos reconhecimento e patrocinadores. Infelizmente, hoje vivemos da ideia de quem assume uma secretaria, mas nem sempre quem assume têm a ideia atrelada a algo que sustente o desenvolvimento do desporto e, muitas vezes, lidamos com pessoas que não estão preparadas para tocar tais ideias, sem conhecimento necessário para desenvolvê-las".

Dirigentes desestimulados

Waldeci e Tadeu explicaram que a atual situação do esporte local tem deixado os presidentes de federações frustrados.

"Existem muitos presidentes que desejam sair. Se a situação não mudar, vão sair e o pior é que a saída deles também desestimula os seus 'discípulos', a geração que vem atrás desiste também. Então a situação é muito complicada", disse Waldeci.

Em concordância com o colega, Tadeu endossou discurso explanando que presidentes de federações são abnegados, já que não recebem para gerir suas respectivas pastas e que, por estarem esgotados com as diversas tentativas frustradas de melhorias, ficam sem ânimo para permanecerem à frente das federações.

"Hoje ser presidente de federação só dá desgaste, você não tem remuneração. A gente acaba tendo somente despesa e isso acaba desestimulando, porque perseguimos os objetivos e não conseguimos. O que a gente quer é apoio e sustentabilidade, para que as federações consigam desenvolver os esportes de alto rendimento", finalizou.

Espaço para diálogo

Nesta sexta-feira (7), haverá uma audiência pública para debater a importância da recriação da Secretaria do Estado, Juventude, Esporte e Lazer (SEJEL).

A audiência, que terá início às 10h da manhã no plenário da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALEAM), será de forma híbrida, para cumprir critérios de segurança sanitária e contará com a participação dos representantes das federações associadas que compõem a AFOAM.

João Felipe

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