Sábado, 08 de Maio de 2021
Perfil criminoso

Relacionamento abusivo: um passo para o feminicídio

Os abusos começam sempre de maneira gradativa



49528-3_46A35A27-BB34-4068-A692-66023CF71868.jpg Foto: Reprodução / Internet
19/12/2020 às 11:14

Cinco feminicídios foram registrados, neste ano, em Manaus, segundo a delegada Marília Campello, coordenadora do Núcleo de Combate ao Feminicídio, situado na Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS), na zona Leste de Manaus. A autoridade policial conversou com o A CRÍTICA  e traçou o  perfil de agressores e vítimas envolvidos nesse tipo de crimes, que terminam com a morte, normalmente violenta, de mulheres.

A maioria dos casos de feminicídio começa com abusos que aumentam de maneira gradativa, de forma que a violência exercida contra a mulher se intensifica no decorrer do tempo de relacionamento. O ápice dos casos é a morte da vítima, que costuma ser violenta. “O feminicídio, portanto, na minha concepção, é um mal que pode ser evitado”, disse. Campello



 A delegada afirmou que há sinais perceptíveis de que parceiros abusivos sejam assassinos em potencial. O feminicídio costuma acontecer em um relacionamento que se tornou repleto de violência, física ou psicológica. “O indivíduo que pratica feminicídio não é uma pessoa ‘gente boa’, que vive em harmonia com a vítima, e, do nada, a mata. A maioria dos casos começa com violência doméstica, que se transforma em um ciclo vicioso, que não tem fim”, afirmou.

Em maio de 2020, o técnico judiciário Rafael Fernandez Rodrigues, 31, foi preso suspeito de matar, a facadas, a miss Manicoré, Kimberly Karen Mota de Oliveira, 22, cujo corpo foi encontrado em um apartamento situado no Centro, zSul de Manaus, com ferimentos de três facadas.

A mãe de Kimberly, Neylla Pinheiro Mota, disse ao A Crítica, à época, que Rafael “aparentava ser uma pessoa boa”. Ainda conforme a familiar, Kimberly havia dito a ela que o relacionamento não estava dando certo, porque o técnico judiciário era muito ciumento.

DEPENDÊNCIA

Segundo Campello, esse tipo de criminoso costuma agir de maneira altamente manipuladora. O perfil das vítimas é o de mulheres que amam os companheiros e acreditam que ele possa melhorar, o que as motiva a perdoar as violências físicas e psicológicas sofridas. “As vítimas são mulheres que acreditam no amor e querem ter uma família. Quanto mais agressivos são, quanto maior é o conflito da discussão, também é maior a forma que esses agressores buscam se ‘redimir’”, relatou.

A relação de dependência entre agressores e vítimas também pode ser financeira. Em alguns casos, os autores de feminicídio também são pais dos filhos das vítimas.

Em setembro deste ano, a agricultora Jacira Souza de Lima, 32, foi morta com pelo menos 30 facadas, no município de Careiro Castanho, distante 102 quilômetros em linha reta de Manaus. O companheiro dela, Augustinho Rodrigues Saraiva Filho, 32, foi preso suspeito de ter cometido o crime.

À época da prisão de Augustinho, a mãe de Jacira, Francisca de Souza Lima, 70, afirmou que Jacira havia falado à irmã que tinha sofrido ameaças de morte de Augustinho. O homem é pai de quatro filhos com Jacira, que embora houvesse sido agredida por ele várias vezes, nunca havia o denunciado.

Em 2019, foram registrados 12 feminicídios na capital, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM).  Em agosto do ano passado, Vanderli da Silva Bonfim, 46, foi preso em uma casa localizada no bairro Colônia Santo Antônio, na zona Norte de Manaus, pela suspeita de ter matado a companheira, Jeruza Gonçalves da Costa, de 29 anos, a facadas.

De acordo com a irmã da vítima, Adriana Gonçalves da Costa, 34, Jeruza e  Vanderli tiveram um relacionamento de 11 meses e brigavam muito. “Ela tinha muitos ciúmes dele. A gente sempre orientava ela para terminar esse relacionamento, mas ela não nos ouviu, infelizmente”, relatou, à época, ao A Crítica.

Para Campello, a maior forma de prevenção de casos futuros é a melhoria da educação, tanto de homens, quanto de mulheres. “A educação da qual falo vai além do mero nível de alfabetização, mas alcança aquele nível de conhecimento em que a pessoa se torna capaz de identificar situações nas quais ela é vítima das ações de um agressor”, disse.

A delegada afirmou, que, em opinião pessoal, julga que as leis atuais sejam rígidas o suficiente. Há, no entanto, casos de muitas mulheres que registram Boletins de Ocorrência (BO), mas não saem do relacionamento abusivo que as levou à polícia. “Só a educação pode mudar o pensamento de um homem que acha que não tem perspectiva de futuro nenhum, a não ser aquele relacionamento. Acredito, que, num espaço de vinte anos, lidaremos com homens que já tenham a noção de que bater na própria mulher não é normal”, disse.

De acordo com Campello, a maioria dos casos de feminicídio acontecem em bairros periféricos.  A delegada afirmou, também, crer que há ocorrências de violência contra a mulher que se originam de um contexto de educação precária. “Isso acontece principalmente em regiões interioranas. Há agressores que agem por pura e simples ignorância. Existem muitos homens, especialmente em lugares com escassez de educação, que acreditam que precisam educar as mulheres deles e utilizam de castigos, por meio de violência, para fazê-lo”.

Normal VS abusivo

Segundo Campello, a diferença entre um relacionamento amoroso normal e um abusivo, que pode levar a um feminicídio, é o nível das ofensas. “A partir do momento em que a vítima é constantemente humilhada com ofensas verbais, ameaçada, há um limite ultrapassado. Em situações assim, as mulheres devem procurar a polícia, mas não podem apenas registrar o Boletim de Ocorrência, é necessário ter atitude ativa após o registro do BO. É preciso que as vítimas não apenas denunciem, mas saiam desse tipo de relacionamento”, afirmou.


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