Sexta-feira, 26 de Novembro de 2021
Aniversário de Manaus

'Nossa categoria não parou. A gente ia pra guerra mesmo', relata motorista de ônibus sobre pandemia em Manaus

O motorista relata que no período de isolamento o medo de levar o vírus para a família era diário



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23/10/2021 às 08:40

Com 23 anos de profissão, o motorista de ônibus, Alzenir da Costa Silva, 46, conta que não parou em nenhum momento durante a pandemia de Covid-19, em Manaus. Ele lembra que no auge dos casos de infecção pelo novo coronavírus houve redução de frota e horário dos ônibus na cidade, o que acabou afetando ainda mais uma realidade já existente, a lotação dentro do transporte público.

Morador do bairro Coroado, Conjunto Ouro Verde, na Zona Leste de Manaus, Alzenir já foi DJ, hoje é casado e pai de uma filha de 17 anos. O motorista relata que no período de isolamento o medo de levar o vírus para a família era diário, já que somente ele – trabalhador de atividade considerada essencial na pandemia- saía de casa, enquanto a filha e a esposa permaneciam em isolamento.



“No isolamento eu fui um cara muito cuidadoso. Como minha esposa não estava trabalhando, ela não se arriscava muito e nem minha filha porque estudava de casa, ela só voltou quando não tinha mais opção mesmo de aula online. Eu não. Fui obrigado a sair. Nossa categoria não parou, a gente ia pra guerra mesmo, mas eu tomava todos os cuidados”, ressalta.

Durante as festas de fim de ano, porém, houve uma fase de relaxamento das restrições. E foi nessa ocasião que os pais de Alzenir contraíram o vírus. O período coincide com a chegada da segunda onda da Covid-19 em Manaus. Alzenir e os irmãos, então, se revezavam para cuidar dos pais doentes. No trabalho, o motorista ficava na garagem como reserva. Em casa, se isolava da filha e da esposa, que passaram a dormir juntas em quarto separado. 

“O pior dia foi quando o meu pai foi internado e minha mãe não conseguiu internação também. Mas meu pai eu comparo igual um super-homem, minha mãe não, ela se entregava, e como várias pessoas morreram, ela achava que ele já estava morto”, conta o motorista, ao ressaltar que, entre os irmãos, ele era o mais medroso e criterioso quanto às medidas de segurança sanitária.

Apesar dos cuidados, após uma semana nessa rotina, os sintomas da Covid-19 também surgiram para o motorista de ônibus. “Fiquei isolado da minha filha e esposa. Enquanto eu estava doente minha filha teve uma crise de ansiedade, chorava muito, dizia que estava com saudade e com medo, e eu tive que consolar ela de longe”, relata. 

Os cuidados foram necessários para que nem a filha e nem a esposa de Alzenir fossem também infectadas. “Antes a gente se beijava pra se despedir, e nesse momento não tinha isso, e foi muito importante porque nenhuma das duas pegou Covid”, destaca.

“Eu não cheguei a ficar ruim, o meu pulmão não foi afetado. Foram muitas orações e remédios caseiros. E graças a Deus, os meus pais também sobreviveram e hoje estou aqui pra contar história”, contou sorrindo. Embora o sorriso logo se desfizesse ao lembrar os familiares e colegas de trabalho que não tiveram a mesma sorte.

 

A primeira morte na empresa 

 

Ao destacar os momentos mais tristes da pandemia, Alzenir começa lembrando as mortes de familiares que ele não pode se despedir, além da perda de amigos que ele sequer pode levar conforto aos que ficaram. “No máximo podia dar um telefonema pra consolar os amigos”, lembra.

Mas o momento que ficou marcado, segundo contou Alzenir, foi quando houve a primeira morte na empresa que vitimou um colega de trabalho. “Ele e a cobradora chegaram comentando sobre um passageiro que vinha tossindo do Armando Mendes até um hospital do Zumbi”, relatou o motorista.

“Logo depois, esse motorista adoeceu e depois de três dias a cobradora também, mas ela sobreviveu. Ele padeceu trabalhando, tossia, tossia, bebia água, era teimoso e não ia para o hospital, então ele piorou mesmo e morreu”, lamentou Alzenir. 

O motorista relata ainda que depois da primeira morte na empresa vieram outras, inclusive, de colegas jovens que praticavam esportes e eram saudáveis, e isso o intrigava. “Eu perdi muitos colegas de trabalho, eu calculo umas 30 pessoas que morreram, entre cobradores e motoristas”, destacou. 

O relato de Alzenir reflete os números reais da pandemia de Covid-19. De abril de 2020 a março de 2021, os motoristas e cobradores de ônibus urbanos lideraram o triste ranking de encerramentos de contratos de trabalho por morte, no Brasil. Os dados são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério da Economia.

 

Um cara de sorte

 

Ao comentar sobre as mudanças que a pandemia trouxe à sua vida, Alzenir, que trabalha como motorista em Manaus desde 1998 e também já trabalhou como DJ nas noites mais badaladas da capital amazonense, destaca que, apesar dos sufocos, se considera um “cara de sorte”. 

“Pensava nos amigos DJs que precisavam das festas pra ganhar dinheiro. Eu trabalhava de carteira assinada, mas já fui DJ e fiquei pensando se ainda dependesse só disso. Achei que tive sorte. Tinham pessoas que ligavam pra mim dizendo: ‘poxa tô sem trabalhar, poxa se tiver uma grana faz um pix’. E não foi só uma pessoa”, disse.

Alzenir destaca que a pandemia pegou todo mundo de surpresa e que Manaus, hoje, é uma cidade ainda tentando se reestruturar. “Passamos muito sufoco, mas fomos voltando aos poucos. Ontem foi aniversário da minha mãe e foi a primeira vez que nós saímos, os filhos todos reunidos, eu fiquei bem aliviado e feliz!”, destacou.


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