Sexta-feira, 26 de Novembro de 2021
Entrevista da semana

Existe uma perversidade imensa nas redes sociais, diz psicólogo

Sérgio Freire alerta para os malefícios causados à saúde pela disseminação de mensagens de ódio nas redes sociais, aconselha parcimônia no uso das plataformas e defende políticas públicas integradas



Sergio_Freire_2_A5D1FDA7-DCF4-4838-A7E2-71D918443ACE.JPG Foto: Junio Matos
26/09/2021 às 06:00

Psicólogo clínico e doutor em Lingüística pela Unicamp, Sérgio Freire avalia que é preciso pensar a cidade de uma forma mais coletiva com integração das políticas públicas. Principalmente, implementar políticas de saúde integral. Ele ressalta que a violência urbana também provoca doenças nas pessoas. 

Em entrevista para o A CRÍTICA, Freire defende ampliação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs). “Precisamos ampliar essa rede de atendimento psicológico porque o adoecimento social, a pobreza, a violência adoecem as pessoas na cabeça. Isso faz com que as pessoas banalizem a vida”, afirma. A seguir a entrevista. 



Como podemos avaliar o cenário de violência no estado do Amazonas?

Se a gente pegar o Atlas de Violência do Brasil, publicado agora em agosto de 2021 pelo Instituto de Política Econômica Aplicada (IPEA) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a gente se assusta um pouquinho com a situação do Amazonas. De todas as unidades da Federação, a única que aumentou sua taxa de homicídios foi o Amazonas: em 1,6%. As demais estabilizaram ou regrediram. Isso significa, em 10 anos, um aumento de 74% na taxa de homicídio. Os números mostram que a violência tem crescido. Em 2019 tivemos 1.600 homicídios, dos quais 128 foram de mulheres. Equivale, em 10 anos, a 54% no homicídio de mulheres. Os números são muito preocupantes. Aonde você vai, seja qual for o índice, como por exemplo, violência contra o jovem, você vai ver que o Amazonas foi o único estado do Brasil que aumentou a violência. Dados apontam que teve um aumento de 5,4%. E esses foram os números dos crimes que foram notificados, fora os que são sub-notificados. Então, temos um cenário preocupante aí. 

A que se deve esse cenário de violência especificamente no Amazonas? 

A violência é uma consequência que vem do cenário social. Por exemplo, da desigualdade social, tráfico de drogas. Aliás, como foi demonstrado no atlas essa é uma peculiaridade do Amazonas, onde a violência é muito grande por causa da disputa do tráfico de drogas. Vem também da politização das polícias, um fenômeno do Brasil todo. E, também do incentivo à aquisição de armas de fogo, uma política governamental. Tem uma série de fatores que criam um cenário para que o sujeito aja violentamente. 

Mas, o comportamento violento não depende da personalidade?
 
A violência é externa e interna. Quando alguém é violento, quando alguém o agride, põe para fora características pessoais potencializadas pelo cenário. São dois fatores. Quando se tem um crime, um assassinato, isso não se dá simplesmente pela pessoa. Dá-se devido a um contexto, que propicia esse tipo de ação. 

Como lidar com essas questões? 

Se as causas, como mostra quem é estudioso no assunto, são o tráfico de drogas e a desigualdade social, a gente tem que começar a combater isso. Temos que ter uma melhor distribuição de renda, combater o tráfico de drogas, institucionalmente, de fato. A gente tem que despolitizar as polícias, tem que ter políticas de desarmamento. Então, é uma série de fatores nos quais a gente precisa intervir para melhorar esse cenário e diminuir esses números que, para o Amazonas, são alarmantes.

Os dados que fazem do Amazonas um estado violento englobam apenas capital ou interior? 

O Amazonas em geral não é um estado violento, porque entram aí as estatísticas do interior. Mas, Manaus é uma cidade muito violenta. Porque Manaus concentra 90% do capital econômico. Então, esses dados globais são mais alarmantes por causa da capital. 

No caso que ocorreu recentemente, com um conhecido empresário e sua esposa sendo presos po envolvimento em assassinato, como o senhor avalia? Envolve crime passional, machismo, questão financeira? 

As pessoas se comportam a partir daquilo que elas consideram suas verdades. Como analista de discurso, minha formação é nessa área. E a gente acredita que a ideologia faz a gente se comportar (assim ou assado). A gente acredita em determinadas coisas e a partir daí a gente se comporta no mundo. Tem circulado, desde 2019, um discurso machista. Ganhou corpo, no Brasil, um discurso preconceituoso, totalitário e isso tudo vai ganhando espaço. Como falei, o externo vai preparando o cenário para que o interno acabe acontecendo. Casos de traição acontecem cotidianamente. Nem todos os casos acabam em assassinato. Por que alguns acabam em assassinato e outros não? Aí sim entra a questão particular. Entra o discurso machista, da humilhação de você se sentir humilhado ao ser chamado de ‘corno’, que é uma coisa que socialmente é prejudicial do ponto de vista na imagem. Tem muitos casos em que acontece uma traição e, de forma adulta, cada um vai pro seu lado. Mas, se para todo o lado que você olha, vê a violência explodindo, você se sente também potencializado a resolver as coisas na base da violência. É uma conjunção do externo e do interno. 

E a questão financeira ajudou a potencializar esse caso?

Claro, tem as variáveis que vão se potencializando. Você tem o machismo, a imagem social, o capitalismo. Essas variáveis vão se somando ao fato de Manaus ser uma cidade violenta. Já acha o local propício e você se sente autorizado a banalizar a vida das outras pessoas. (Passa a pensar) que ela pode ser comprada, tirada, como se fosse uma mercadoria, como você compra um pão.

Mas, podemos ver que no caso desse crime passional houve premeditação?

A autoria, se comprovado o mandante, a pena vai ser maior porque houve premeditação. As pessoas podem agir de forma violenta sem que elas sejam violentas. Isso acontece com a gente, quando acontece alguma coisa ruim na nossa vida, num momento de explosão, podemos agir de forma violenta. Isso é uma coisa. A outra coisa é quando você para, maquina, planeja. É o que a psicologia chama de perversidade. O perverso elimina a culpa, porque ele não tem esse sentimento. E então planeja esse tipo de coisa. Tirar a vida de uma pessoa é uma coisa muito séria. Então, você planejar e, principalmente, executar esse plano é algo muito sério e mostra, realmente, que a gente está vivendo em uma sociedade doente e precisamos melhorar. 

Qual o papel das redes sociais no estímulo desse cenário de aumento da violência? 

As redes sociais surgem no final dos anos 90, mas se fortaleceram nos anos dois mil e elas acabam potencializando uma série de coisas. Existe o que a gente chama de tribunal da internet. As pessoas julgam, sem ter elementos para isso e esse julgamento é absorvido pelas pessoas. Então, por exemplo, vivemos na sociedade da visibilidade. A juventude vive postando suas fotos no Instagram, onde há a ditadura do corpo, e quando não encontra eco, a gente vê casos e mais casos de suicídio. Porque alguém critica o corpo de alguém ou o comportamento. As pessoas vivem muito na expectativa de fora, de prestar contas com o mundo. E, quando essas expectativas não são correspondidas pelo mundo, há uma auto-cobrança. 

Então, realmente, os chamados haters fazem mal?
 
Fazem sim. O que a gente recomenda, do ponto de vista da psicologia é você se isolar, sair das redes, faça um detox e saia do alvo. Porque as pessoas são realmente perversas, existe uma perversidade imensa nas redes sociais e isso faz um mal danado para as pessoas. 

Como resolver tudo isso? 

Precisamos pensar a cidade de uma forma mais coletiva. As políticas públicas precisam ser integradas. Precisamos ter políticas de saúde integral. Temos muito poucos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) na cidade. Precisamos ampliar essa rede de atendimento psicológico porque o adoecimento social, a pobreza, a violência adoece as pessoas na cabeça. Isso faz com que as pessoas banalizem a vida. É por isso que alguém chega numa parada de ônibus, pede o celular e se a pessoa não der, ela mata e vai embora. Como se toma um gole de água. Isso é um problema psicossocial. O governo tem a obrigação de ter políticas públicas de atendimento às questões psíquicas. E deve aumentar as políticas de segurança pública, fazendo de uma forma integrada. Não adianta fazer isso de forma isolada. 

E com relação às redes sociais? 

Eu acho que as redes sociais são um cenário que faz parte da vida. Também é bobagem dizer “Ah, eu vou sair de todas as redes sociais”. Talvez isso seja uma solução caso você esteja vivendo uma situação de ser alvo de haters. Mas, as redes sociais devem ser usadas com parcimônia, não se expor demais, não se sentir obrigada a dar conta pros outros da sua vida. Use as redes sociais como você conversa com seus amigos numa mesa de bar, na beira da piscina, mas nada mais do que isso, nada muito exagerado. Demais até água faz mal.

Os discursos de ódio nas redes sociais, no mundo virtual, turbinam a violência no mundo físico?

Eles se retroalimentam. Quanto mais espaço a violência e ódio acharem espaço para ganhar corpo, maiores serão as consequências em qualquer arena, seja no mundo físico ou no digital.

Qual  público é mais suscetível a esse tipo de discurso?

Aqui volta de novo aquela questão: a violência é uma junção de fatores externos e fatores internos. Quando a pólvora encontra o fogo é lógico que vai explodir. É preciso desarmar esses discursos com políticas públicas de saúde no sentido definido pela Organização Mundial de Saúde. Saúde é ter comida, emprego, renda, cultura, diversão, esporte. Só ampliando o acesso a bens sociais e culturais podemos desarmar essa bomba-relógio que nos ameaça a cada instante.

Como o senhor vê a tentativa do governo federal de criar obstáculos para as plataformas digitais moderarem (barrarem) fake news e discursos que promovam a violência?

É um discurso coerente com o discurso que o governo federal tem apresentado desde que assumiu. Não é de surpreender ninguém. E vai no sentido contrário do que falamos. Não é um discurso do diálogo. É um discurso da supressão do outro, do aniquilamento do diferente. Ao querer regular as redes dessa forma, permitindo que fake news disseminem desinformação e ódio, o governo faz o oposto do seu papel devido. Põe mais pólvora num cenário em que deveria agir para garantir o equilíbrio e paz social de seus cidadãos.
 


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