Quarta-feira, 23 de Setembro de 2020
DESAGRADOU

Bolsonaro demite secretário de Cultura após declaração com teor nazista

Roberto Alvim, secretário especial da Cultura do governo federal, utilizou trechos semelhantes ao discurso do ministro da propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels, durante anúncio do Prêmio Nacional das Artes



bolsonaro2_A6122108-691E-48EF-9594-884FFD46224C.JPG Foto: Divulgação
17/01/2020 às 12:35

O secretário especial de Cultura do governo federal, Roberto Alvim, foi demitido da função pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nesta sexta-feira (17). Alvim utilizou trechos semelhantes ao discurso do ministro da propagada da Alemanha nazista, Joseph Goebbels, durante o anúncio do Prêmio Nacional das Artes, em um vídeo publicado na quinta-feira (16) no Twitter oficial da secretaria de Cultura.

A demissão de Alvim já era esperada desde as primeiras reações ao vídeo que, além de utilizar trechos idênticos ao discurso de Goebbels sobre ‘aspiração patriótica’, usou outra referência do regime de Adolf Hitler. A ópera “Lohengrin”, de Richard Wagner, compositor alemão celebrado pelo líder nazista, e que teve larga influência na ideologia de Hitler, compôs a trilha sonora durante os 6 minutos de vídeo.

O que disse Goebbels

Segundo o livro "Goebbels: a Biography", de Peter Longerich, o líder nazista afirmou: "A arte alemã da próxima década será heroica, será ferramenta romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada".



O que disse Roberto Alvim                                           

No vídeo divulgado pela Secretaria Especial da Cultura por meio do Twitter na noite de quinta-feira (16), e apagado na tarde desta sexta-feira (17), Alvim afirma: "A arte brasileira da próxima década será heróica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada", discursou Alvim no vídeo postado nas redes sociais.

A exoneração de Alvim foi anunciada pelo jornal O Estado de São Paulo na manhã de hoje. Posteriormente, Bolsonaro em seu perfil no Twitter oficializou a saída do secretário. "Comunico o desligamento de Roberto Alvim da Secretaria de Cultura do Governo. Um pronunciamento infeliz, ainda que tenha se desculpado, tornou insustentável a sua permanência".

 

Bolsonaro também afirmou que repudia ideologias totalitárias. "Reitero nosso repúdio às ideologias totalitárias e genocidas, como o nazismo e o comunismo, bem como qualquer tipo de ilação às mesmas. Manifestamos também nosso total e irrestrito apoio à comunidade judaica, da qual somos amigos e compartilhamos muitos valores em comum".

Defesa ‘retórica’

Roberto Alvim utilizou suas redes sociais para se defender e classificou as semelhanças de seu discurso com o de Goebbels como uma "coincidência retórica", mas defendeu que "a frase em si é perfeita".

“Eu não citei ninguém. E o trecho fala de uma arte heroica e profundamente vinculada às aspirações do povo brasileiro. Não há nada de errado com a frase. Todo o discurso foi baseado num ideal nacionalista para a arte brasileira, e houve uma coincidência com uma frase de um discurso de Goebbles... Não o citei e jamais o faria. Foi, como eu disse, uma coincidência retórica, mas a frase em si é perfeita: heroísmo e aspirações do povo é o que queremos ver na arte nacional”, concluiu.



Maia e Alcolumbre repudiaram

Ainda na manhã desta sexta-feira (17), o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (PSD), classificou o discurso feito por Roberto Alvim como 'passando dos limites. "O secretário da Cultura passou de todos os limites. É inaceitável. O governo brasileiro deveria afastá-lo urgente do cargo". Disse Maia por meio de uma publicação no Twitter.

Já o presidente do Senado Federal, David Alcolumbre (DEM), que é o primeiro judeu a assumir a presidência do Senado brasileiro, afirmou, por meio do Twitter, que só teve conhecimento da declaração de Alvim após retornar para Brasília de uma viagem ao Amapá, seu estado de origem. "É inadmissível termos representantes com esse tipo de pensamento. E, pior ainda, que se valha do cargo que ocupa para explicitar simpatia pela ideologia nazista e, absurdo dos absurdos, repita ideias do ministro da Informação de Adolf Hitler, que infligiu o maior flagelo à humanidade", disse Alcolumbre na publicação. 

Durante o Holocausto que marcou o maior genocídio da história, de acordo com o Memorial aos Judeus mortos na Europa, na Segunda Guerra Mundial, estima-se que aproximadamente seis milhões de judeus e outras minorias tenham sido assassinadas a mando do Estado nazista, que patrocinava um programa sistemático de extermínio étnico a mando de Hitler. "É muito grave o que o secretario de Cultura fez. Utilizar o discurso do ministro mais ideológico de Hitler, Goebbels, como declaração para a cultura brasileira, é um absurdo. Pior seria se ele permanecesse no cargo", comenta Armando Vilella, professor de História da Universidade Federal do Amazonas.

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, também se manifestou sobre o assunto. “Há de se repudiar com toda a veemência a inaceitável agressão que representa a postagem feita pelo secretário de Cultura. É uma ofensa ao povo brasileiro, em especial à comunidade judaica”.

Outras manifestações

Em publicação no Twitter, a Embaixada da Alemanha no Brasil destaca que o governo alemão se opõe "a qualquer tentativa de banalizar ou glorificar a era do nacional-socialismo". "O período do nacional-socialismo é capítulo mais sombrio da história alemã, trouxe sofrimento infinito à humanidade. A Alemanha mantém sua responsabilidade. Opomo-nos a qualquer tentativa de banalizar ou glorificar a era do nacional-socialismo", diz a mensagem.

A Confederação Israelita do Brasil (Conib), em nota, diz considerar "inaceitável o uso de discurso nazista pelo secretário". "Goebbels foi um dos principais líderes do regime nazista, que empregou a propaganda e a cultura para deturpar corações e mentes dos alemães e dos aliados nazistas a ponto de cometerem o Holocausto, o extermínio de 6 milhões de judeus na Europa, entre tantas outras vítimas".

*Com informações da Agência Brasil

Repórter

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