Sábado, 04 de Julho de 2020
ciência em pauta

Pesquisa da Ufam investiga potencial do Mastruz como fitomedicamento da Covid-19

Apesar de ainda sem provas de eficácias e com riscos na utilização, a planta latino-americana possui compostos que poderiam agir como inibidores de enzimas do novo coronavírus



1772633_A129823D-A69F-43F2-BEC4-36AE6C337D91.jpg Foto: Euzivaldo Queiroz
05/06/2020 às 10:11

Pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em parceria com outros estudiosos, publicaram no fast track da Revista Internacional Memórias do Instituto Oswaldo Cruz um estudo referente ao potencial do mastruz (Dysphania ambrosioides) como fitomedicamento para uso contra a Covid-19.

Intitulada “Flavonoid glycosides and their putative human metabolites as potential inhibitors of the SARS-CoV-2 main protease (Mpro) and RNA-dependent RNA polymerase (RdRp)”, a publicação apresenta, por meio de uma abordagem computacional, o potencial de compostos presentes no mastruz como inibidores de enzimas envolvidas na replicação do vírus SARS-CoV-2, responsável por provocar a Covid-19. A decisão de investigar o mastruz partiu de relatos, mundialmente conhecidos, de que a planta tem efeitos benéficos contra doenças respiratórias.



Os pesquisadores explicam que os flavonóides presentes no mastruz e seus derivados, que ocorrem no organismo humano após a ingestão, apresentaram boa capacidade de ancoragem a enzimas do vírus, inibindo-as e indicando, preliminarmente, o seu potencial contra a Covid-19.

O mastruz tem origem na América Latina e está presente no Brasil e em várias partes do mundo. A planta é relatada por muitos povos no tratamento de doenças respiratórias e a ela são atribuídas propriedades expectorante, cicatrizante, anti-inflamatória e antiviral, entre outras.

A abordagem computacional, usada pelo estudo, é teórica (in silico) e simula processos naturais em um ambiente virtual. No caso específico, a abordagem utilizada (ancoragem molecular) permitiu simular as interações de substâncias conhecidas (ligantes) com enzimas específicas do coronavírus. O resultado sugere as substâncias rutina e nicotiflorina, dois dos principais flavonóides do mastruz, como possíveis alternativas no combate ao vírus da covid-19. O estudo aponta a rutina como uma possível alternativa à heparina de baixo peso molecular (HBPM), devido aos seus efeitos anticoagulantes e anti-inflamatórios e sua proteção potencial contra lesões agudas do pulmão (LAP).

“O estudo computacional é um primeiro passo e tem, por natureza, diversas limitações. Somente estudos mais aprofundados, in vitro, in vivo e clínicos, poderão nos conduzir a um porto seguro sobre o uso da planta e dos seus flavonóides ou outras substâncias que sejam detectadas, como medicamento – há um caminho longo até lá. Obviamente, são necessárias mais pesquisas para atestar os resultados relatados no paper. No entanto, nos parece evidente, a necessidade de investigar o potencial de D. ambrosioides como fitomedicamento para uso contra Covid-19”, explicam os cientistas no estudo.

Sem provas de eficácias: há riscos

Os pesquisadores esclareceram também que não há comprovação de que a planta seja um remédio caseiro para prevenção ou tratamento da Covid-19.

“Não podemos indicar o uso da planta como remédio caseiro”, observa. “É evidente que mesmo um chá utilizado por pessoas em diversos países, como é o caso, pode ser prejudicial se for utilizado de forma errada e abusiva. É importante pontuar que havendo a Covid-19, o uso da planta não dispensa os cuidados médicos, pois não existe, até onde temos conhecimento, estudos conclusivos que garantam que esta planta é remédio contra essa pandemia”, elucidaram.

Fica claro, na própria publicação, que o estudo não é conclusivo e precisa ser confirmado ou desmentido por estudos mais aprofundados. “Aqui, vale alertar às pessoas que consomem o mastruz por algum motivo, que as sementes e as flores, bem como a planta crua, podem causar intoxicação, conforme descrição na literatura científica. Destaque-se também que o mastruz é relatado como abortivo, não devendo ser consumido por mulheres grávidas”, finalizaram os pesquisadores.

Pesquisas in vitro, in vivo e clínica

Assinam o estudo preliminar, publicado em maio, os pesquisadores Felipe Moura da Silva, Emmanoel Costa, Maria Lúcia Pinheiro, Antonia de Souza e Afonso de Souza e o pós-graduando Luiz Paulo de Oliveira, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em parceria com o pesquisador Hector Koolen da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e a pesquisadora Katia Pacheco da Silva, da Secretaria Municipal de Saúde  de Itabirito (MG).

O sistema fast track permite a publicação mais acelerada de conclusões preliminares, com revisão ainda em andamento, em situações excepcionais (como a atual pandemia), para o enfrentamento de doenças.

Os próximos passos são os estudos in vitro, in vivo e clínicos. Há uma parceria entre a Ufam e a Universidade de São Paulo (USP) para seguir com ensaios de células infectadas.

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