Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2022

Capacitismo, preconceito contra PcDs baseado em discurso religioso

Justificar preconceito com crenças é algo arcaico e extremamente irresponsável.


28/10/2021 às 10:46

Por Nancy Segadilha, advogada e PcD

A condição das pessoas com deficiência é um terreno fértil para o preconceito em razão de um distanciamento em relação aos padrões físicos e/ou intelectuais que se definem em função do que se considera ausência, falta ou impossibilidade, sendo baseada apenas em um aspecto ou atributo da pessoa, tornando a diferença uma exceção. O indivíduo que apresenta alguma deficiência é em muitos casos exposto a situações de agressão e violência, geradas basicamente pelo preconceito. Neste contexto, persiste a ideia de que estas pessoas seriam “anormais” ou “limitadas” ou “menos evoluídas” ou “merecedoras de sofrimento”.

 PESSOAS COM DEFICIÊNCIA E OS EQUÍVOCOS DAS RELIGIÕES

É certo que vivemos uma suposta era da inclusão da pessoa com deficiência. São muitos avanços e conquistas pelo menos no aspecto formal e jurídico na busca por afirmação de direitos e de reconhecimento da pessoa com deficiência como parte ativa da sociedade. Mas por outro lado, ainda vivemos um tremendo retrocesso na leitura social da condição de deficiência, sobretudo diante da ótica das religiões.

Uma infeliz herança cultural que alimenta uma imagem equivocada e sustenta interpretações deturpadas da pessoa com deficiência. As mais diversas religiões tratam a deficiência, seja ela qual for, como doença, colocando a pessoa nessa qualidade em um quadro de sofrimento abominável, como se o fato de ser pessoa deficiência fosse algo demoníaco ou uma condição maligna.

Alguns anos atrás essa visão infeliz da deficiência foi alimentada em uma novela brasileira com vasta repercussão nacional. Em “O outro lado do paraíso”, da Rede Globo, a personagem Mercedes, interpretada pela atriz Fernanda Montenegro, protagonizou a suposta cura de Raquel (Erika Januza), um “milagre” por meio de práticas xamanistas.

Foto de Raquel, personagem da novela global, sendo iluminada em uma cama de hospital

Ficou claro que a finalidade desse curandeirismo era libertar a mulher que ficou paraplégica de “tamanho sofrimento”. Com todo respeito à liberdade religiosa que é um direito fundamental, assim como à liberdade artística e cultural, mas alimentar essa visão maligna e doentia da pessoa com deficiência em TV aberta é uma afronta à luta incessante de milhões de brasileiros que buscam reconhecimento social enquanto cidadãos e sujeitos de direito em um Estado formalmente laico.

Influenciador manauara e a “culpa” dos Autistas

Sem nenhuma formação que o capacitasse para comentar sobre autismo o homem proferiu em uma live absurdos como: “Ele carrega uma culpa muito grande. E às vezes ele está num sentimento de culpa que atordoa a mente dele. E às vezes ele fica décadas lá no mundo espiritual sofrendo, com a consciência pesada, sentimento de culpa, e ele fica naquela… sabe… naquela dor e tal. E Deus, para amenizar a dor dessa criança, ele o reintegra na sociedade, o colocando numa reencarnação nova, a fim de que ele se desconecte do mal que ele causou em outras vidas, fazendo com que ele se sentisse culpado” o sentimento por aqui é de revolta e também cansaço de ainda termos que combater esses discursos em 2021.

Quando o assunto é o respeito às diversidades nós, Pessoas com Deficiência, buscamos a mesma compreensão social e o engajamento com que se discute o combate ao racismo ou as questões de gênero, queremos ser respeitados como cidadãos, gente que faz parte da sociedade e não queremos nem precisamos ser tratados como heróis ou mártires também (essa é outra face do capacitismo que podemos discutir em outro momento).

Com todo respeito à fé que cada pessoa carrega dentro de si, seja qual for a sua religião, evangélica, católica, espiritualista ou qualquer outro tipo de crença, temos que deixar claro que a deficiência deve ser pensada como uma característica ou qualidade da pessoa humana. Em uma visão racional de fé, ainda afirmo que a deficiência não pode ser encarada como castigo, carma, provação, coisa demoníaca entre outras classificações religiosas para situações negativas que assolam a vida humana.

Deficiência não é doença para ser curada. Uma coisa é a pessoa com deficiência ter suas próprias convicções religiosas, professar uma fé e nela depositar os seus valores por livre arbítrio. Outra coisa completamente diferente é permitir que prevaleça na sociedade atual essa visão equivocada e preconceituosa de que a pessoa com deficiência é um ser doente que necessita ser curado e liberto a qualquer custo. Jamais!

Eu agradeço grandemente os amigos, leitores e apoiadores do movimento Inclusão Dever de Todos que me escreveram e tiraram dúvidas ao longo dessa semana, realmente é um desafio muito grande lutar contra o preconceito e a desinformação e somente com a força do coletivos será possível vencer.

Inclusão Dever de Todos!


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